Respostas: Fonte: “Coletâneas em Medicina e Cirurgia dos Felinos” 2003. Editora LF livros.

1- Existe alguma virose que leve meu gato a espirrar tanto como se estivesse gripado e posso prevenir essa infecção?
 

A rinotraqueíte viral felina (RVF) e a calicivirose felina (CVF) são as doenças respiratórias mais prevalentes dos gatos, cujos sinais clínicos freqüentemente se confundem e, por vezes tornam-se indistinguíveis, em função disso, são reunidas num mesmo grupo, referindo-se ao complexo respiratório viral felino (CRVF).

Os sintomas principais dos gatos com infecção aguda pelo FHV-1 são febre (40°C ou mais), blefarospasmo, espirros, tosse, meneios da cabeça, secreção nasal e ocular, intensa sialorréia, anorexia e prostração.

Os espirros são esporádicos inicialmente, tornando-se cada vez mais freqüentes e paroxísticos. A secreção nasal mucopurulenta provoca a oclusão das vias aéreas superiores, de forma que o animal perde o olfato e passa a respirar com a boca aberta. O apetite vai diminuindo até cessar. A tosse é uma manifestação da laringotraqueíte. A moléstia clínica persiste no mínimo por 10 a 20 dias.

A glossite induzida pelo FHV-1 ocorre em gatos com RVF grave. As afecções orais são lesões freqüentes e características da CVF, que surgem de forma isolada ou em associação com outras formas da doença. As úlceras localizam-se geralmente na língua, palato, ângulo da mandíbula, na extremidade do focinho, e raramente, na pele, espaços interdigitais e coxins plantares. Tal alteração leva à dor intensa e à salivação profusa nos animais enfermos, motivo pelo qual eles relutam em ingerir qualquer tipo de alimento. Os animais perdem peso e desidratam facilmente, ficando suscetível às infecções bacterianas secundárias.

A secreção ocular ocasionada pelo FHV-1 é de caráter seroso inicialmente, evoluindo para secreção mucopurulenta; observa-se, então um edema conjuntival, blefarospasmo. As complicações oculares podem evoluir a vários estágios, o que inclui sinais clínicos como a ceratite intersticial, ceratite ulcerativa superficial ou profunda com descementocele, e até uma ruptura do globo ocular com perda da visão uni ou bilateral.

A infecção dos ductos lacrimais pode levar a formação de cicatrizes e oclusão dos mesmos, ocorrendo umedecimento persistente uni ou bilateral da face, causado pelo lacrimejamento; pode ainda ocorrer ceratoconjuntivite seca, embora rara no gato em decorrência da RVF. Em filhotes jovens, conjuntivite severa e ulceração na córnea concomitante resultam em simbléfaro com adesão da conjuntiva à córnea. A presença de cicatriz no epitélio corneano pode ocasionar em uma aderência entre a íris e a córnea.

O aborto pode ser uma conseqüência da infecção aguda em uma fêmea prenhe não imunizada contra FHV-1 por vacinação prévia ou por exposição natural.

Na infecção crônica pelo FHV-1, os gatos adultos podem demonstrar sinais de afecção respiratória através de espirros esporádicos e secreções nasal e ocular. A rinite e a sinusite dos seios frontais são complicações associadas ao portador crônico de RVF, em conseqüência das lesões no epitélio.

Os sinais típicos da infecção aguda pelo FCV nos gatos são: febre, anorexia, ulcerações na língua, palato e filtro nasal, periodontite, espirros, rinite, conjuntivite e secreção nasal e ocular leves. A sintomatologia do trato respiratório é variável, porém geralmente menos severa do que a RVF; a afecção nasal é branda, apresentando apenas espirros e pouco corrimento nasal. Em adição a isso, o felino acometido pelo FCV pode apresentar conjuntivite, secreção ocular serosa e quemose brandas e ainda blefarospasmo.

Os sinais clínicos dos gatos portadores crônicos do FCV são periodontite com perda precoce dos dentes, particularmente os incisivos, e escassa secreção nasal e ocular.

O controle efetivo do CRVF em populações felinas depende de uma combinação de programas de vacinação estrategicamente aplicados; da segregação dos animais por faixa etária, minimizando a exposição dos animais mais novos e susceptíveis aos eliminadores potenciais do vírus, como os gatos portadores assintomáticos; além da manutenção de um ambiente físico com baixa densidade populacional, limpo e ventilado, evitando a concentração do microrganismo.

O programa de vacinação deve ser direcionado a abranger um maior número de animais possível dentro de uma população, contudo estes animais não devem ser vacinados com uma freqüência maior do que a necessária e a imunização devem ser somente contra os agentes infecciosos que demonstram um risco real e conseqüente evolução das doenças. Os filhotes com idade inferior a 16 semanas são mais suscetíveis ao desenvolvimento da forma severa do CRVF, portanto, eles representam o principal alvo no programa de vacinação. A imunidade maternal pode perdurar por não mais que 5 a 6 semanas para RVF e 7 a 8 semanas para o CVF.

A vacina ideal contra um agente respiratório deve ser segura, não deve induzir efeitos colaterais indesejáveis, deve propiciar completa proteção contra a doença clínica quando da agressão pelo vírus de campo, e deve ainda prevenir o desenvolvimento do estado portador, quando administrada antes que tenha ocorrido a exposição natural. Infelizmente, não existe atualmente tal vacina, assim sendo, a vacinação contra o CRVF precisa ser vista como uma proteção contra a enfermidade na forma severa, e não como uma proteção contra a infecção.

As vacinas contra RVF e FCV comercializadas são do tipo vírus inativado (VI) ou com vírus mortos, ou do tipo vírus vivo modificado (VVM) ou atenuado, administradas por via parenteral. As vacinas utilizadas no CRVF são combinações, visando à proteção dos gatos contra o vírus da RVF, CVF, panleucopenia e, em alguns produtos, atuando também contra os antígenos, da clamidiose felina, da leucemia viral felina ou da raiva.

Essas vacinas conjugadas são geralmente liofilizadas, pois deste modo são bastante estáveis e, após a sua reconstituição devem ser prontamente utilizadas.

Há ainda, a vacina de VVM de uso tópico em forma de gotas, que são instiladas por via intranasal ou ocular, porém até o presente momento não está disponível no mercado brasileiro.

As vantagens do uso das vacinas com o vírus atenuado é que elas levam a um grau e duração da imunidade similar a que é induzida por uma infecção natural, sendo desta maneira mais rápida e durável. Devido aos vírus vacinais serem vivos, uma única dose é ampliada pela replicação no hospedeiro envolvido.

A replicação viral promove uma estimulação antigênica persistente de anticorpos protetores e resposta imune celular.

As vacinas com o vírus atenuado podem ser administradas também pela via natural de infecção, ou seja, nasal ou ocular, conseqüentemente induzindo uma imunidade local, revelada pela produção de IgA. Elas são ainda estimulantes mais eficientes da resposta imune celular local e sistêmica.

Em virtude das vacinas atenuadas promoverem um rápido desenvolvimento da imunidade, elas têm uma vantagem distinta no controle de surtos, onde um grande número de animais está envolvido. A desvantagem é a replicação no hospedeiro, causando infecção e, considerando a habilidade do vírus vivo em se multiplicar, há a possibilidade de reversão de sua virulência. A vantagem da vacina com o vírus inativado é a segurança. O vírus inativado não se replica no hospedeiro e, posteriormente, elimina-se a probabilidade de reversão de virulência ou a inclusão de vírions patogênicos na vacina. As vacinas inativadas são as mais indicadas para as gatas prenhes e nos felinos imunossuprimidos pela infecção pelo vírus da imunodeficiência felina. Contudo, as vacinas com o vírus inativado induzem a uma proteção curta, sendo necessárias várias aplicações, e os intervalos das revacinações são mais curtos.

O protocolo vacinal adotado pela maioria dos profissionais e recomendado pelos fabricantes, consiste na aplicação da primeira dose de vacina na 8a semana de idade por via parenteral, e uma segunda dose após três a quatro semanas, seguida de reforço anual. Todavia, ultimamente tem se sugerido uma mudança no protocolo vacinal, sendo que após o primeiro reforço anual, as próximas imunizações teriam um intervalo entre doses de três anos. Na verdade, tal mudança é suportada pela teoria de que os produtos biológicos utilizados atestam titulações de anticorpos suficientes para proteger os felinos contra o vírus da RVF, CVF e panleucopenia por mais de três anos. Sendo que, estes títulos de anticorpos declinam de forma gradual ao longo do tempo. Além disso, a memória imunológica contra estas doenças permanece por 7 anos nos felinos vacinados.

Em 1998, um protocolo vacinal para a população de baixo a moderado risco de contrair infecção pelo FHV-1 e FCV foram preconizados, e se baseia na idade do animal à primeira visita ao veterinário. Caso o animal apresente idade inferior a 12 semanas, a primeira dose da vacina, aplicada neste momento, e é seguido por outras doses administradas com intervalo de três a quatro semanas até o animal atingir a idade de 12 semanas; a dose de reforço é realizada 1 ano depois e, então, o intervalo passa a ser de 3 anos, tanto para vacinas de VVM quanto para vacinas de VI . Caso o animal se apresente à primeira visita ao veterinário com idade superior a 12 semanas, este recebe apenas uma única dose de vacina de VVM, ou uma dose de vacina de VI e uma segunda dose é repetida após 3 a 4 semanas, e então o reforço é administrado após 1 ano, quando o intervalo passa, novamente, a ser de 3 anos.

Tal surpreendente mudança no protocolo vacinal vem gerando discussões na comunidade científica, onde se questiona sobre o aumento no intervalo vacinal, visto que a vacina não possui 100% de eficácia, além disso, a imunidade reduz consideravelmente com o passar do tempo.

Outro aspecto a se considerar é o enorme potencial enzoótico destas enfermidades, além do risco que as populações de gatos errantes causam frente à disseminação das doenças. Atualmente no Brasil, não possuímos informações e pesquisas sobre a incidência e prevalência do CRVF, que nos dê suporte para implantação de um intervalo vacinal tão longo. E, devemos considerar o instinto compulsivo dos donos de gatos na aquisição de novos animais, onde uma população de baixo a moderado risco passa para uma população de alto risco.

As principais medidas de controle em abrigos e criatórios baseiam-se nos seguintes fundamentos: quarentena, segregação, identificação e intervenção precoce, e manejo ambiental. Para a introdução de novos gatos à população, devem-se tomar algumas medidas de proteção contra a infecção pelo CRVF. Estes devem ser isolados e avaliados para possíveis sinais de enfermidade por 3 semanas ou mais e devem ser testados para o FeLV e FIV, respectivamente. Os gatos pertencentes à colônia que apresentem sintomas respiratórios devem ser permanentemente removidos e, caso permaneçam, devem ficar em recintos separados por uma distância de 1,5 metro. É conveniente a segregação por grupos homogêneos, como o grupo de gatas adultas, grupo de filhotes desmamados e dos gatos jovens; grupo de gatos machos adultos e outro grupo somente de gatas prenhes e filhotes em amamentação. Os gatinhos provenientes de mães portadoras devem se separar precocemente das mesmas, em torno das quarta ou quinta semana, idade na quais os níveis de anticorpos maternais declinam. Os felinos que apresentam sinais de doença crônica devem ser removidos ou mantidos definitivamente separados da colônia principal, bem como aqueles positivos para a infecção pelos vírus da FeLV e/ou FIV.

São de fundamental importância nos abrigos e criatórios com doença respiratória enzoótica, a diminuição da densidade populacional e o aumento da renovação de ar no recinto, para que se reduza a concentração viral.

Outra forma freqüente de propagação dos vírus da RVF e CVF é a transmissão através das mãos dos tratadores, enfermeiros e médicos veterinários, além da presença do vírus nos utensílios como fômites e vasilhas sanitárias. Portanto, a lavagem rotineira das mãos é imprescindível no manejo dos felinos sob qualquer circunstância.A desinfecção do ambiente, bem como dos utensílios é indispensável para eliminação dos vírus. O desinfetante não pode ser irritante nem tóxico para os gatos e seres humanos. Considerando a maior resistência do FCV a alguns desinfetantes, o uso do hipoclorito de sódio na concentração de 0,2% demonstra 99% de eficácia contra este vírus. Este desinfetante é o recomendado para limpeza dos gatis, mesas ambulatoriais, comedouros, bebedouros, vasilhas sanitárias, dentre outros.

No mercado brasileiro, o alvejante denominado água sanitária possui uma concentração de 2% de cloro ativo e para se chegar à concentração eficaz para eliminação dos vírus e não irritante para os felinos, dilui-se 1 litro do alvejante em 9 litros de água. As superfícies devem ser bem secas após a desinfecção, antes que o animal seja introduzido no gatil.

2- Quais são as formas de medicação e vias de administração para os gatos?

A administração dos medicamentos, por via oral, nas formas de soluções, suspensões, pós, cápsulas, comprimidos e drágeas, podem ser escolhidas para gatos de fácil manipulação, sendo um método de administração de fármaco satisfatório de ser instituído na casa do proprietário.

A administração de comprimidos para gatos requer mínima contenção física, mas rapidez e exatidão são fundamentais. O local adequado para medicar um gato é sobre um banco (do tipo igual ao utilizado em bares) sem encosto ou em cima de uma mesa. O banco é a melhor opção, pois o gato fica preocupado em se equilibrar em uma pequena superfície e resiste pouco às manobras para a administração dos medicamentos. O gato não deve ser colocado no colo ou no chão, ele reconhece estes locais como seu território e a resistência à administração do medicamento será com maior intensidade.

A cavidade oral do gato é pequena. A escolha do tamanho do comprimido, drágea e cápsula deve ser de acordo com a facilidade do gato engolir; quanto menor o eixo longitudinal do fármaco melhor. As cápsulas quando umedecidas pela saliva aderem à mucosa da orofaringe, sendo recomendado lubrificá-las com manteiga ou margarina, podendo também ser empregado este método para mascarar sabores indesejáveis de comprimidos divididos.

A forma de administração de comprimidos por via oral é feita utilizando-se um aplicador de plástico ou pinça hemostática curva, colocado em uma posição caudal entre a língua e o palato, próximo da faringe. O aplicador é removido e a boca é ocluída imediatamente após a colocação do comprimido.

Alguns proprietários possuem grande experiência e agilidade e administram rapidamente o comprimido sem uso do aplicador.
A forma de administração por via oral das preparações líquidas é feita colocando-se o medicamento dentro de uma seringa. A cabeça do animal é imobilizada e a seringa é posicionada na maxila entre o canino e o segundo pré-molar. Pequenas quantidades de líquido devem ser impelidas a cada vez, possibilitando a ingestão pelo animal. É de suma importância manter a cabeça do gato em posição perpendicular em relação ao corpo, evitando-se a falsa via dos medicamentos. A cabeça do felino não deve estar nunca erguida durante a administração das preparações líquidas.

As preparações líquidas são bem aceitas pelos felinos quando apresentam uma palatabilidade apropriada, ou pelo menos, que o animal não apresente nenhuma objeção. Os gatos não gostam de sabores adocicados e quando os felinos não apreciam o sabor do medicamento, eles salivam profusamente).

Os medicamentos, em apresentações líquidas, podem ainda ser misturados aos alimentos quando o suporte nutricional está sendo feito de forma involuntária por seringa e, também, diretamente pela sonda pela via nasoesofágica, via orogástrica ou por meio da esofagostomia, oferecendo boa alternativa nas clínicas veterinárias.

A concentração do líquido deve ser de tal forma que permita administrar uma dosagem que não ultrapasse dois mililitros por vez. As formulações líquidas são especialmente úteis para gatos e filhotes que tenham pesos corporais inferiores a 2 kg.

As emulsões (óleos minerais) não devem ser empregadas pelo grande potencial de acarretar pneumonia lipídica, que é uma forma particular de pneumonia por aspiração, que pode levar à consolidação pulmonar. Nesse tipo de pneumonia, gotas de óleo mineral são inaladas pelos alvéolos, isto ocorre devido à ausência de estimulação dos reflexos inibitórios de aspiração, em virtude da natureza do óleo mineral, sem sabor e não irritante. A aspiração de óleo mineral induz a uma pneumonia crônica progressiva com uma resposta inflamatória grave com intensa infiltração de macrófagos, fibrose e calcificação.

Nas clínicas veterinárias, a administração de drogas pela via parenteral em gatos é alternativa em uma parcela de pacientes felinos que não aceitam a medicação por via oral, sendo importante via de administração de medicamentos nos animais que estão inconscientes, vomitando, com enfermidade na cavidade oral e nos irascíveis.

A aplicação das soluções aquosas, não irritantes com o pH próximo ao local de aplicação, pode ser feita por meio da via subcutânea, estendendo a pele do dorso do felino que é bastante elástica entre as duas escápulas, evitando excesso de manipulação na contenção.
A administração de injeções pela via subcutânea é fácil, segura e pouco dolorosa. É aconselhável utilizar agulhas de boa qualidade.
A administração de fluidos pela via subcutânea pode ser usada com sucesso no tratamento de suporte de muitos gatos enfermos. Essa via pode ser empregada para corrigir um grau de desidratação leve e fornecer a manutenção de fluidos, como também, para corrigir pequenos déficits de eletrólitos e álcali.

A administração de fármacos pela via intramuscular, principalmente as substâncias oleosas, deve ser feita em infusão lenta na musculatura do grupo dos músculos quadríceps na porção anterior ao fêmur, rotineiramente, pois é de fácil aplicação e contenção, evitando-se injúrias ao nervo ciático. Nos felinos de difícil cooperação, a aplicação da injeção intramuscular pode ser realiza entre a musculatura do semimembranoso e semitendinoso com o animal agarrado na grade. A aplicação de injeção no músculo bíceps femoral é contra-indicada, pois a solução fica acumulada freqüentemente na fáscia do músculo e pode ocorrer lesão permanente no nervo ciático.

A administração de fármacos pela via intravenosa fica reservada quando da indicação da droga e nos casos em que se desejar imediatamente o máximo de concentração plasmática da droga após a aplicação, nos pacientes hipotensos e nos gatos em estado de choque, em conseqüência da péssima perfusão tecidual, impedindo a absorção da droga por via subcutânea ou intramuscular. A via intravenosa é escolhida para a correção de um grau de desidratação grave e de déficit de eletrólitos e álcali, visto que o acesso direto à circulação permite administrar grandes volumes de fluidos. Contudo, é fundamental um monitoramento, pois pode ocorrer excesso de hidratação e distúrbios hidroeletrolíticos graves, quando o fluido é infundido rapidamente.

Essa via é utilizada antes, durante e após os procedimentos anestesiológicos. Os locais mais apropriados para a colocação do cateter são as veias cefálicas, femorais e jugulares.A colocação do cateter do tipo borboleta “scalp” é indicada para infusão temporária de fluidos, aplicação de medicamentos e colheita de sangue. Comumente, as cânulas de plástico ou cateteres do tipo “Jelco” ou “Abbocath” são empregadas no acesso venoso tanto por um período temporário como mais longo.

3- O que é toxoplasmose e qual o papel dos gatos na transmissão dessa doença?

A toxoplasmose ocorre numa grande variedade de animais de produção e de estimação, incluindo aves, bovinos, ovinos, suínos, caprinos, gatos, cães, animais silvestres e a maioria dos vertebrados terrestres.

Em animais de produção, o aborto, a mortalidade neonatal e os defeitos congênitos, devido à infecção pelo Toxoplasma gondii, levam a perdas econômicas para os produtores. Em mulheres gestantes, a toxoplasmose pode manifestar-se por abortos espontâneos, natimortos ou defeitos congênitos.

Mais recentemente tornou-se evidente que o Toxoplasma gondii é uma importante causa de doença e morte em pacientes com câncer e com AIDS.

Os médicos-veterinários são freqüentemente questionados e solicitados a darem orientações a proprietários de animais de estimação a respeito da toxoplasmose.

Considerando que boa parte dos profissionais da saúde ainda possui muitas dúvidas a respeito das modalidades de infecção humana, do perigo potencial desse parasita nos vários segmentos da população em risco e do verdadeiro papel do gato doméstico na transmissão da doença, não é de surpreender que a população de maneira geral esteja mal-informada a respeito do problema. Muitos médicos e veterinários ainda fazem recomendações, quanto aos animais de estimação, baseadas, muitas vezes, em preconceito e desinformação.
A emergência da toxoplasmose nos anos 80 como importante infecção oportunista em pacientes com AIDS estimulou novo interesse por esse organismo tanto como causa de doença quanto como poderoso modelo para estudos sobre parasitismo intracelular.

O Toxoplasma gondii é um protozoário coccídio, parasita intracelular obrigatório que infecta a grande maioria dos animais de sangue quente, inclusive o homem.

Embora seja um parasita com pouca especificidade quanto ao hospedeiro, os membros da Família Felidae (domésticos e selvagens) são os únicos hospedeiros definitivos do Toxoplasma gondii, visto que são os únicos nos quais se completa o ciclo enteroepitelial (fase sexual) do parasita.

Muitas espécies de vertebrados servem como hospedeiros intermediários, incluindo anfíbios, peixes, répteis, aves e mamíferos. Os gatos servem tanto como hospedeiros definitivos quanto como intermediários.

No complexo ciclo de vida do Toxoplasma gondii, existem três estágios infectantes: (1) os taquizoítos, que são formas que se multiplicam rapidamente; (2) os bradizoítos, que são formas de lenta multiplicação encontrados nos cistos teciduais e (3) os esporozoítos encontrados nos oocistos.

Enquanto os taquizoítos e bradizoítos ocorrem nos tecidos de todos os animais infectados, os oocistos são excretados somente nas fezes dos gatos.

Os gatos se infectam pela ingestão de esporozoítos em oocistos esporulados (contaminação fecal) ou pela ingestão de cistos contendo bradizoítos ou taquizoítos nos tecidos dos hospedeiros intermediários (carnivorismo). Após serem ingeridos pelos hospedeiros, as paredes externas dos cistos ou dos oocistos são rompidas por degradação enzimática e as formas infectantes (bradizoítos e esporozoítos, respectivamente) são liberadas no lúmen intestinal. Eles rapidamente invadem e se multiplicam dentro das células circundantes, onde se tornam taquizoítos. A seguir, a disseminação dos taquizoítos do Toxoplasma gondii ocorre pelo rompimento das células infectadas, seguida da invasão de células vizinhas. Eles invadem o tecido linfóide associado ao intestino e se disseminam, pelos linfáticos, sangue e macrófagos infectados, para praticamente todos os órgãos.

Essa série de eventos caracteriza o chamado ciclo extraintestinal ou sistêmico. Em aproximadamente duas semanas, o hospedeiro começa a desenvolver imunidade, que faz com que a taxa de multiplicação do parasita diminua. Os organismos com lenta taxa de multiplicação, agora chamados bradizoítos, se confinam num cisto de parede elástica, no citoplasma das células infectadas. A resposta imune do hospedeiro destrói os taquizoítos, mas os bradizoítos ficam protegidos pelo cisto intracelular e permanecem viáveis, por muitos anos, em estado latente.

No gato, o hospedeiro definitivo, além desse ciclo, ocorre também o ciclo sexual nos intestinos, também chamado ciclo enteroepitelial. Após o gato ingerir tecidos de suas presas contendo cistos, as paredes desses cistos são dissolvidas pelos sucos digestivos no estômago e intestino delgado. Os bradizoítos liberados penetram nas células epiteliais do intestino delgado e iniciam uma série de gerações sexuadas geneticamente determinadas. Após o gameta masculino fertilizar o gameta feminino, uma parede é formada ao redor do gameta feminino fertilizado (zigoto) a fim de formar um oocisto.

Os oocistos não estão esporulados quando passados nas fezes e, portanto, não são infectantes. Após a exposição ao ar, eles esporulam, em média, 3 dias após a excreção, dependendo das condições ambientais e, então, passam a conter dois esporocistos, cada um com quatro esporozoítos.

O Toxoplasma gondii é transmitido principalmente de três maneiras, infecção transplacentária, ingestão de alimentos ou água contaminados com oocistos esporulados de fezes de gatos e ingestão de carne crua ou mal-cozida contendo cistos teciduais. Embora mais raras, outras fontes de infecção são citadas na literatura, como transfusão de sangue, transplante de órgãos para receptores não infectados e acidentes de laboratório.

As formas de infecção podem variar, dependendo de fatores sociais e higiênicos, da umidade ambiental, da ocupação profissional e dos hábitos e costumes dos habitantes de uma determinada região. A relativa importância de cada um desses modos de infecção merece ser esclarecida individualmente.

O papel do gato, nessa zoonose, está primariamente relacionado com a produção de oocistos e a perpetuação da doença no meio ambiente e na cadeia alimentar. Após a ingestão de cistos contidos nos tecidos dos hospedeiros intermediários, principalmente pequenos mamíferos e pássaros, e completado o ciclo enteroepitelial, o gato elimina, para o ambiente, cerca de 100.000 oocistos / g de fezes. Entretanto, os oocistos devem esporular antes de se tornar infectantes. Esse processo leva de 1 a 5 dias após a excreção. A esporulação ocorre no ambiente e é dependente da temperatura e umidade. Os oocistos podem persistir no ambiente por até 2 anos.
Provavelmente, menos de 1% da população felina, num determinado momento, deve estar excretando oocistos. Os oocistos são excretados por apenas 1 a 2 semanas. Os gatos, em geral, não voltam a excretar oocistos quando reinfectados, pois desenvolvem imunidade, devido à primeira infecção.

A maioria dos gatos que caçam são freqüentemente reexpostos ao T.gondii, mantendo, portanto, sua imunidade intestinal.

Imunossupressão com altas doses de corticosteróides pode causar reexcreção de oocistos em alguns gatos. Porém, o número de oocistos excretados durante uma infecção secundária é muito menor do que após uma infecção primária.

Embora a infecção concomitante com o vírus da imunodeficiência felina (FIV) possa afetar a gravidade da toxoplasmose nos gatos, ela não consegue dar início a um novo episódio de excreção de oocistos. Semelhantemente, a infecção com o vírus da Leucemia Felina (FeLV) não parece predispor os gatos à toxoplasmose aguda e não possui nenhum efeito na excreção de oocistos.

Infecção humana por contato direto com gatos excretando oocistos é extremamente improvável e, como os oocistos devem esporular para ser infectantes, o contato com fezes frescas não é capaz de causar infecção.

Os gatos, em geral, defecam e enterram suas fezes em terra fofa ou areia. Geralmente, as fezes são consistentes e podem permanecer no local por meses. A menos que o gato esteja doente, pouco ou nenhum resíduo fecal fica aderido à região perianal, e os gatos, em geral, não estão diarréicos durante o período de excreção de oocistos. Por causa de seus cuidadosos hábitos de limpeza, matéria fecal não é encontrada na pelagem de gatos clinicamente normais. Portanto, a possibilidade de transmissão para seres humanos pelo ato de tocar ou acariciar um gato é mínima ou inexistente.

Também é improvável que uma mordida de gato possa transmitir a infecção, pois os taquizoítos dificilmente estarão presentes na cavidade oral de gatos com infecção ativa e nenhum estará presente na boca de gatos com a infecção crônica. Arranhões também são improváveis meios de transmissão do T.gondii.

O contato humano com os oocistos esporulados é provável que ocorra mais freqüentemente pela geofagia, quando há contato direto com a terra, ou bebendo água contaminada.

Água contaminada com oocistos pode ser importante meio de transmissão do T.gondii em certas partes do mundo.

Vários estudos têm demonstrado que a fonte de infecção da toxoplasmose mais comum nos países industrializados parece ser o contato e consumo de carnes cruas ou mal-cozidas contendo cistos do T.gondii.

Entre os animais de consumo, os suínos, ovinos, caprinos e coelhos são mais comumente infectados com o T.gondii que bovinos e eqüinos, comparativamente. A carne suína é considerada a maior fonte de infecção, para os seres humanos, nos EUA, e provavelmente também o é em vários outros países. O T.gondii pode sobreviver por mais de um ano no suíno, persistindo na musculatura, inclusive nos cortes mais utilizados para consumo humano. Em relação à carne bovina, as informações disponíveis ainda são inconclusivas. Sabe-se que os bovinos estão entre os hospedeiros mais resistentes ao T.gondii.. Bovinos experimentalmente infectados são capazes de reduzir drasticamente ou eliminar os cistos viáveis do T.gondii de seus tecidos. Estima-se que a prevalência do T.gondii em aves de corte seja baixa e seu perigo potencial seja pequeno, pois geralmente sua carne é congelada e, ou, bem cozida antes do consumo. Porém, considerando que cistos viáveis já foram isolados da musculatura esquelética e cardíaca de aves infectadas experimentalmente, inclusive no Brasil, mais atenção deve ser dispensada à potencial importância como fonte de contaminação para os seres humanos.

Quanto à resistência dos cistos na carne, acredita-se que eles não resistem aos processos de salga, cura ou aquecimento, utilizados na confecção de carnes industrializadas. Portanto, a carne industrializada apropriadamente não é uma fonte provável de infecção humana.
Assim também o consumo de carnes congeladas, em que a maioria dos cistos é morta por congelamento, em temperaturas comumente alcançadas nos freezers domésticos. Estudos sugeriram, entretanto, que as carnes embutidas (principalmente na forma de salsichas) representam importante fonte de infecção na Costa Rica e podem também ser responsáveis pela alta prevalência de lesões oculares por toxoplasmose no sul do Brasil. A utilização de processo inadequado para o processamento das carnes pode ser o responsável por essas prevalências.

Outros tipos de carne, cujo consumo é mais raro e, algumas vezes, está restrito a determinadas regiões do mundo, também podem ser considerados fontes de cistos do T.gondii, dentre eles a de eqüinos, coelhos e animais selvagens.

A infecção pela carne pode dar-se não somente pelo consumo, mas também pela manipulação da carne crua, contato com superfícies de preparação de alimentos, facas e outros utensílios.

Já foram relatados casos de toxoplasmose humana relacionada com o consumo de leite de cabra in natura. O risco de se adquirir a toxoplasmose pelo leite de vaca é considerado mínimo.

A infecção em humanos usualmente passa desapercebida ou se apresenta como uma afecção benigna, autolimitante, em indivíduos imunocompetentes. Por outro lado, a infecção congênita ou a infecção no paciente imunocomprometido pode resultar em doença debilitante ou até fatal.

A maioria das infecções em pessoas adultas é subclínica, detectável somente através da soroconversão. Somente em 10 a 20% das pessoas imunocompetentes, a infecção primária é acompanhada de alguns sintomas, como febre, linfoadenopatia transitória, dores de cabeça e dores musculares . Muitas dessas infecções têm sido diagnosticadas como gripe, devido à semelhança dos sintomas. É estimado que cerca de 15% de todos os casos de linfoadenopatia inexplicáveis são atribuíveis à toxoplasmose.

As lesões oculares decorrentes da toxoplasmose, primariamente consideradas somente como seqüelas de infecções congênitas, têm sido, cada vez mais, relatadas como sendo relacionadas também com a infecção pós-natal. Quando uma mulher grávida adquire a infecção pelo T.gondii pela primeira vez, o parasita pode infectar a placenta e, então, o feto. Isso pode causar aborto, natimorto, seqüelas neurológicas e desordens oculares, ou infecções subclínicas. Se a mãe estava cronicamente infectada antes da gestação, considera-se que o feto estará protegido da infecção congênita.

Foi demonstrado que a incidência de infecções fetais é razoavelmente baixa (cerca de 15%) quando a mãe adquire a infecção primária no início da gestação (primeiro trimestre), porém os danos, para o feto, são mais graves. Sabe-se também que infecção pelo T.gondii no segundo trimestre da gestação resulta em cerca de 25 a 55% de infecção fetal, e de 15 a 30% desses fetos desenvolvem infecção grave. Por outro lado, as infecções adquiridas durante o terceiro trimestre de gestação resultaram em alta taxa de infecção fetal (cerca de 65%), porém a maioria tem curso subclínico.

Embora a maioria dessas crianças não demonstre sinais óbvios de infecção ao nascerem, muitas provavelmente terão manifestações da doença mais tarde, como coriorretinite e retardamento mental. Portanto, a infecção transplacentária ocorre somente se a mulher adquire a infecção primária durante a gestação, e mulheres que transmitiram a infecção para os fetos, numa gestação anterior, não representam risco para futuras gestações.

Estima-se que mais de 18 milhões de pessoas no mundo tenham sido infectadas com o vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), a causa da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS). À medida que a imunodeficiência progride, essas pessoas tornam-se susceptíveis a uma ampla variedade de infecções oportunistas. Entre elas, a toxoplasmose vem assumindo papel de destaque, como a causa mais comum de infecções cerebrais em vítimas de AIDS. A toxoplasmose cerebral ocorre em cerca de 40% dos pacientes com AIDS. A grande maioria dos casos de encefalite por toxoplasmose é resultado da reativação de uma infecção latente e somente uma pequena porcentagem dos casos é devida à infecção aguda, adquirida.

Com freqüência, pede-se aos médicos-veterinários que façam recomendações a respeito do convívio de gatos com mulheres grávidas. Às vezes, eles devem até mesmo confirmar conselhos dados pelos médicos. Infelizmente, alguns médicos e veterinários estão desinformados ou agem de maneira preconceituosa sobre o fato de se possuir um gato e, a alguns clientes, são feitas recomendações que não podem ser consideradas razoáveis, nem válidas.

Vários fatores devem ser considerados quando se orienta uma gestante quanto ao que se deve fazer com o gato durante a gestação. Um título sorológico positivo para o T.gondii na mulher ou no gato, não indica infecção ativa, a menos que aumento do título seja demonstrado 2 a 4 semanas mais tarde. É mais provável que isso signifique que tanto a mulher quanto o gato estejam imunes .

Os proprietários de gatos com freqüência questionam seus veterinários se seus gatos já excretaram oocistos no passado ou se eles poderão potencialmente excretá-los no futuro. Como os oocistos raramente são encontrados nas fezes, testes sorológicos têm sido utilizados na tentativa de prever quando determinados gatos os excretaram.

De maneira geral, se anticorpos específicos para o T.gondii são detectados no soro felino, é provável que o gato já tenha excretado oocistos. Gatos saudáveis soropositivos, portanto, são mais seguros, pois dificilmente eles voltarão a reexcretar oocistos infectantes.
Entretanto, o teste sorológico de mulheres durante a gestação geralmente não permite que se faça uma distinção clara entre infecção ativa e infecção prévia. Se fosse possível, um teste sorológico deveria ser feito antes da gravidez e somente a demonstração de aumento do título indicaria infecção ativa. Um título negativo para o T.gondii, em gatos ou mulheres, significa que não houve exposição prévia, e infecção futura é possível.

Com o surgimento e disseminação da infecção pelo HIV, é cada vez mais comum que o veterinário também tenha que se posicionar quanto à prevenção de infecções oportunistas em pacientes com AIDS relacionadas com seus animais de estimação. Recentes estudos retrospectivos não encontraram nenhuma correlação entre o fato de se possuir um gato e a soroconversão para o T.gondii em adultos infectados com o HIV, nos EUA.

Diversos estudos têm demonstrado que possuir um gato como animal de estimação, ter contato direto com gatos perto de casa ou trabalhar com gatos num hospital veterinário não aumenta a chance de contrair a toxoplasmose. Evitar a exposição a gatos não significa evitar a exposição aos oocistos. Considerando todas as outras fontes, a eutanásia de gatos de estimação não soluciona o problema.
Pessoas consideradas como tendo risco de adquirir a infecção devem tentar evitar o contato com cistos teciduais e oocistos, mediante uma série de medidas simples e muitas vezes ignoradas, quando se leva em consideração apenas a presença de gatos na casa.

A fim de prevenir a infecção em seres humanos pelo T.gondii, as pessoas devem lavar cuidadosamente as mãos com água e sabão após o contato com carne crua. Tábuas de carne, superfícies de pias e outros utensílios em contato com carne crua devem ser lavados com água e sabão, pois a água eliminará os estágios do T.gondii encontrados na carne. A carne deve ser cozida, para alcançar a temperatura interna de 67?C, antes de ser consumida. Considera-se que o preparo da carne no forno de microondas não seja capaz de matar os cistos, devido ao cozimento desigual . Deve-se também evitar o hábito de experimentar a carne enquanto está cozinhando ou embutidos caseiros em fase de maturação.

Mulheres grávidas e indivíduos imunocomprometidos devem evitar trocar a caixa de areia dos gatos. A remoção diária das fezes da caixa de areia também evita a exposição, pois os oocistos serão removidos antes que possam esporular .

Como o principal papel do gato na transmissão do T.gondii está na sua capacidade de contaminar o solo com grande número de oocistos, as pessoas sob risco deveriam usar luvas ao mexer com a terra, para evitar contato com esses oocistos. Frutas e verduras devem ser cuidadosamente lavadas antes do consumo, pois podem estar sujas de terra contaminada.

Como a maioria dos gatos se infecta pelo consumo de carne contendo cistos, aos gatos de estimação não devem ser dados carne crua, vísceras ou ossos, e deve-se evitar ao máximo que saiam de casa para caçar.

Medidas para combater os vetores mecânicos também devem ser implementadas.

Esforços têm sido empregados no desenvolvimento de uma vacina que seja eficaz para evitar que os gatos excretem oocistos, para o ambiente, após a infecção primária; e, alguns desses experimentos têm sido bem sucedidos. Apesar de uma vacina comercial ainda não estar disponível, as perspectivas são promissoras.

4- Devo me preocupar com o hipertiroidismo em gatos?

O hipertiroidismo é uma enfermidade crônica causada pela excessiva produção e secreção de tiroxina (T4) e triiodotironina (T3).

Os primeiros relatos de hipertiroidismo descritos em gatos ocorreram nos EUA em 1979 e 1981. A incidência do hipertiroidismo felino é um tema controverso. Em alguns países representa a endocrinopatia mais comum e, em outros, é um diagnóstico raro . A tireotoxicose leva a um distúrbio multissistêmico, que acomete, principalmente, gatos na faixa etária de 4 a 22 anos de idade com média de 12 anos. Praticamente, a totalidade dos casos está representada por uma hiperplasia adenomatosa tiroidiana funcional, com comprometimento bilateral ou unilateral dos lobos tiroidianos.

Os efeitos multissistêmicos do hipertiroidismo refletem disfunção de muitos sistemas orgânicos e a gravidade dos sintomas é em função do excesso de hormônio produzido.

A presença ou ausência de um sintoma pode nem diagnosticar, nem excluir o hipertiroidismo. Na maioria das vezes, a instalação do estado hipertiroideo é lenta e progressiva. Os proprietários demoram a perceber, pois os gatos mantêm um ótimo apetite e permanecem ativos, até a perda de peso.

Os sintomas reportados durante a anamnese são em ordem de freqüência: a) perda de peso e a polifagia – aumento do gasto energético e do consumo de oxigênio, havendo perda de massa muscular. Os hormônios tiroidianos regulam os processos metabólicos da produção de calor para o metabolismo dos carboidratos, proteínas e lipídios, ocorrendo aumento de apetite, perda de peso, depleção muscular, intolerância ao calor e temperatura corporal ligeiramente aumentada; b) pêlo embaraçado e eriçado, pelagem feia e alopecia, às vezes, com hipertricose ou onicogrifose e pele quente, ocorre descuido no cuidado do pelame e maior crescimento do pêlo devido ao aumento da síntese protéica, pelo contrário, a alopecia se explica pelas excessivas lambeduras induzida pela termogênese (desprendimento do pêlo pela termodispersão) e por motivos de ordem comportamental; c) poliúria e polidipsia, pelo aumento da perfusão renal; d) polidipsia compulsiva ou psicogênica, em função do aumento da sensação de calor; e) diarréia e aumento de massa fecal, vômito (hipermotilidade gastrintestinal e ação direta do T4 sobre o centro do vômito) e diminuição da secreção pancreática; f) agitação ou hiperatividade, nervosismo, agressividade e tremores (efeito direto dos hormônios tiroidianos sobre SNC e um aumento da atividade adrenérgica); g) ofegante e intolerante ao calor e h) dispnéia.

Cerca de 5% a 10% dos gatos hipertiroideos manifestam sinais clínicos opostos e são denominados apáticos. Os gatos demonstram depressão profunda, debilidade, anorexia, e flexão cervical ventral. A presença ou ausência de um sintoma pode nem diagnosticar, nem excluir o hipertiroidismo.

A dosagem sérica do T4 total é o melhor teste para realizar a exploração funcional da tireóide. A forma conjugada representa mais de 99% do total do hormônio. Alguns gatos têm níveis normais de T4 total, seja por causa da flutuação dos níveis desse indicador (que entram e saem dos limites da normalidade) ou por causa da supressão dos níveis de T4 total para os limites normais em razão de alguma enfermidade não tireóidea concomitante. Quando o T4 total está normal e há suspeita de hipertiroidismo devemos repetir a dosagem desse indicador uma a duas semanas depois.

5- Qual o melhor alimento e quantidade de água para o meu gato ?

Quem tem um gato quer estar sempre seguro de que as refeições que serve a ele são não apenas apetitosas, mas também balanceadas para atender as necessidades de nutrição do animal. lsso é possível com o uso do alimento especialmente preparado para ele. Hoje, existem no mercado, vários alimentos completos e balanceados, que atende totalmente ás necessidades de nutrição dos gatos.

O alimento industrializado seco (ração) deve ser introduzido aos poucos na alimentação dos gatos, para que eles se acostumem a mudança no paladar e na textura.

A ração deve ser deixada à disposição do gato. Gatos não comem de uma só vez como os cães, mas sim aos pouquinhos, daí a necessidade de estarem sempre se alimentando.

A ração seca é um alimento balanceado, conveniente e barato, porém só contem 10% de umidade. A ração seca faz com que o gato sinta necessidade de ingerir bastante água, cerca de 230 mL para cada xícara das de chá de ração.

É muito importante deixar água fresca à disposição e renová-la regularmente, qualquer que seja a dieta.

A ingestão inadequada de água pode predispor o gato a manifestar desidratação, problemas renais e formações de cálculos e cristais urinários, bem como levar a retenção crônica de fezes.

Caso o gato fique sem comida e água, ele morrerá primeiro de sede do que de fome, assim sendo a água é o nutriente mais importante para espécie animal.

6- O que devo observar no gato idoso?

O envelhecimento é um processo inevitável e irreversível, contudo, o estado débil atribuído muitas vezes ao gato geriátrico, na realidade pode ser oriundo de uma enfermidade que pode ser corrigida ou pelo menos tratável pelo médico veterinário.

Deve-se diferenciar as mudanças inerentes ao processo de envelhecimento daquelas em função dos processos patológicos.

O ciclo de vida do gato pode ser dividido em quatro estágios: filhotes-faixa etária compreendendo 6 a 8 meses; adultos- animais com 1 a 7 anos de idade; idosos- entre 8 a 12 anos e; geriátricos- após os 12 anos.

O número de gatos idosos e geriátricos vem aumentando no atendimento clínico diário. Isso se deve pelo aumento da preferência do felino como animal de estimação e pelo fato da medicina veterinária preventiva ter evoluindo muito.

Hoje, os gatos são favorecidos pelos programas de vacinação, dietas mais adequadas para a faixa etária e de prescrição (segundo as enfermidades), além da evolução das técnicas para obtenção de um melhor diagnóstico, soma-se ainda, a participação de proprietários mais conscientes e zelosos pela saúde do seu gato. Tudo isso fez com que a expectativa de vida dos gatos, que era de 10 anos, passa-se para 15 anos.

Se estimarmos em 15 anos a longevidade média de um gato, este atingirá o último terço de vida ao redor dos 10 anos de idade, o que corresponde a uma definição comum de envelhecimento qualquer que seja a espécie envolvida.

Neste estágio, geralmente aparecem sinais que chamam a atenção dos proprietários: falta de dinamismo, sonolência, alteração do pêlo. A expectativa de vida máxima de um gato é geneticamente programada.

Ao contrário do que ocorre com os cães, a raça tem uma influência desprezível na expectativa de vida do gato, mas por outro lado, esta última varia consideravelmente em função do ambiente do animal.

Para um gato que vive fora de casa, a expectativa de vida é de apenas 10 anos, mas um animal confinado em um universo muito protegido atinge 18 a 20 anos de idade. Alguns gatos são conhecidos por terem vivido mais de 30 anos.

Hoje em dia os gatos são castrados com muita freqüência e vivem cada vez mais no interior das casas: portanto, eles estão menos expostos a acidentes.

Uma alimentação apropriada e de qualidade permite combater os fenômenos patológicos e fisiológicos ligados ao envelhecimento, manter o peso do gato em seu nível ideal, e contribuir para a prevenção de problemas urinários.

O conhecimento da influência do envelhecimento em cada um dos sistemas orgânicos aumenta a capacidade para criar critérios para os meios de diagnósticos, para planejar programas de prevenção de doenças e instituir terapias adequadas.

Os gatos idosos e geriátricos são mais sedentários, menos enérgicos, menos curiosos e mais restritos em suas atividades. Eles se ajustam lentamente as mudanças da dieta, atividades e rotina. Eles são menos tolerantes ao calor ou frio extremo. Eles procuram locais confortáveis aquecidos e dormem por longos períodos. Os pêlos apresentam-se embolados, secos e sem brilho, visto que os gatos idosos costumam perder o interesse de se lamberem. Quando manipulados, são mais fáceis de irritarem. Muitas das mudanças comportamentais ocorrem pelas alterações nos órgãos dos sentidos: diminuição da audição, da visão e do olfato. As unhas são pouco desgastadas e é comum vê-las introduzidas nos coxins. Eles apresentam dores articulares de forma insidiosa, em função de doenças degenerativas das articulações, é notória a presença de fraqueza muscular e perda de tônus muscular, principalmente nos membros.

Tudo isso faz com que os gatos restrinjam sua atividade e habilidade para participar da vida familiar. Muitos gatos ficam tão carentes com o afastamento que começam um processo de lambedura compulsiva, levando as áreas extensas de alopecia, ou iniciam com o distúrbio de eliminação de urina ou fezes em locais inapropriados.

Viagens e hospitalizações são pouco toleradas pelos gatos idosos. Tais gatos se alimentam pouco ou ficam anoréticos, muito ansiosos e dormem pouco. É melhor deixá-los em casa sob os cuidados de alguém familiar (“cat-sitting services”).

Constipação é um dos problemas freqüentes do gato idoso. Os fatores de risco são: falta de exercício, retenção fecal voluntária, dieta inapropriada, dor por impactação da glândula adanal, redução da motilidade intestinal e fraqueza da musculatura intestinal. As fezes se apresentam mais ressecadas e endurecidas.

Doenças periodontais levam aos processos extremamente dolorosos e fazem com que os gatos recusem o alimento. A perda de peso é um problema sério no gato idoso e deve ser investigada se é devido a problemas dentários, endócrinos, afecções de má absorção e/ou a uma percepção mais fraca dos odores e sabores dos alimentos.

O gato é por natureza um grande consumidor de proteínas, não há razão alguma para reduzir drasticamente o fornecimento protéico quando ele envelhece. Esta restrição poderia ser prejudicial a sua saúde. Enquanto que a restrição protéica não permite retardar o envelhecimento do rim, por outro lado aconselha-se uma diminuição de fósforo na dieta. Com esta medida pode-se esperar um retardamento do declínio da função renal.

Os alimentos que acidificam a urina dos gatos são desaconselhados após os 10 anos de idade. Estes alimentos parecem favorecer o desenvolvimento de cálculos urinários de oxalato, os quais são mais frequentemente observados em gatos idosos. Além disso, é melhor evitar alimentos acidificantes em animais cuja função renal poderia estar prejudicada.

Com conseqüência de um aumento na expectativa de vida do gato, observamos cada vez mais as doenças crônicas. As doenças encontradas com maior freqüência em gatos idosos são em ordem decrescente de importância: 1) insuficiência renal crônica, 2) problemas dentários, 3) tumores (adenoma funcional da glândula tireóide, acarretando em hipertiroidismo), 4) degenerações ósseas e musculares, 5) doenças cardiovasculares e 6) diabetes mellitus.

O programa preventivo de saúde para o gato idoso deve ser iniciado a partir da faixa etária de 7 a 11 anos de idade e deve continuar por todo resto de sua vida. Esse programa tem sido recomendado pela Associação Americana de Clínicos Especialistas em Felinos e pela Academia de Medicina Felina, em 2005, num painel para reportar os cuidados com o paciente felino idoso.

Caso o gato não demonstre nenhum tipo de doença, este deve constar: avaliação completa da história médica pregressa e do comportamento do animal, exame físico completo (peso, temperatura, pulso, freqüência respiratória e cardíaca, coloração da membrana de mucosa e tempo de preenchimento capilar, estado de hidratação), ajudam a estabelecer o que está normal e reconhecer o mais cedo possível o que está errado, tais como murmúrio cardíaco, dor, a presença de rins irregulares e pequenos ou nódulos na tireóide. É fundamental avaliar o peso do animal e as condições corpóreas e compará-las com aferições anteriores, para verificar se houve perda ou ganho substancial.

A mensuração da pressão arterial pode se feita de forma indireta usando o método Doppler, usando um aparelho de doppler e um esfigmomanômetro manual acoplado a uma braçadeira. Assim, pode-se detectar hipertensão sistêmica antes que haja dano em algum órgão ou hemorragia ou descolamento de retina. O ideal para o valor da pressão no gato é 145 a 160 mmHg ou menos (pressão arterial sistólica).

A avaliação clínica laboratorial consiste hemograma completo, proteínas totais e plaquetas, bioquímica sérica creatinina, potássio, fosfatase alcalina, alanina aminotransferase, concentração de T4 total por radioimunoensaio, urinálise, teste para detecção da presença do FeLV ou anticorpos para o FIV. Além disso, exames fecais devem ser feitos em gatos expostos a ambientes de risco.

A recomendação para pacientes que estejam portando alguma enfermidade é similar as anteriormente mencionadas associadas aos exames específicos para as afecções.

7- O que é doença renal policística autossômica dominante em gatos?

A doença renal policística (DRP) é uma doença congênita caracterizada pelo desenvolvimento de cistos renais que culminam com a insuficiência renal crônica.

È reconhecida em diferentes raças de gatos, mas é particularmente prevalente em animais da raça Persa.

Nesta raça, assim como nas raças originadas de cruzamentos de Persas, como a Himalaia e animais da raça Exótica foi comprovado que esta doença está relacionada a um caráter hereditário autossômico dominante.

Esta enfermidade é muito semelhante à doença renal policística autossômica dominante (DRPAD) que acomete os humanos, sendo o gato um ótimo modelo experimental.

Foi verificada a existência desta afecção também em ratos, cães das raças Cairn Terriers, West Highland White Terries, Bull Terriers, ferrets e cavalos.

Nos homens, assim como nos felinos, a DRPAD é uma enfermidade renal de longo e progressivo curso que leva a insuficiência renal. Tendo como característica o desenvolvimento e crescimento de estruturas císticas em ambos os rins e freqüentemente no fígado.

Nos gatos, em virtude do desenvolvimento dos cistos, progressivamente maiores e mais numerosos, todo o órgão torna-se aumentado bilateralmente e de forma significativa.

A compressão do parênquima renal pelos cistos é o principal fator de patogênese da insuficiência renal; cujos sinais clínicos variam individualmente tanto em relação à idade de manifestação e quanto a duração dos mesmos.

A possibilidade de diagnóstico precoce e não invasivo propiciado pela técnica de PCR (feito através de colheita de amostras da saliva) e ultra-sonografia abdominal deve ser vista como uma estratégia de prevenção e controle da doença. Estas técnicas permitem o diagnóstico precoce da doença, isto é, antes do desenvolvimento de insuficiência renal. Esta precocidade é particularmente importante nos países em que o transplante renal é uma opção terapêutica real.


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